O estoico, o cínico e o padeiro: Epicteto

e a teoria paneciana dos papéis

12/09/2026 | Por: Prof. AldoDinucci

O estoico, o cínico e o padeiro: Epicteto

Pão Fresco aos Pés dos Deuses (Prof. AldoDinucci)

Epicteto afirma que tudo o que ocorre no mundo se dá segundo a Natureza Universal, embora muitas coisas atinjam a nossa natureza individual. Isso porque nossas naturezas individuais não são separadas, razão pela qual muitas coisas que acontecem parecem intencional ou malignamente se opor a nós, o que não é o caso. Por exemplo, se uma árvore cai sobre alguém causando ferimentos, não devemos ver tal fato como algo determinado pela Natureza contra aquele indivíduo. A árvore caiu por causas naturais, e o indivíduo simplesmente estava no lugar errado no que se refere à sua integridade física, do mesmo modo que um pé se enlameia ou se corta porque um homem precisa atravessar a pé um terreno difícil. Assim também, muitas vezes somos alvejados por outros seres humanos, sendo roubados, agredidos, injustiçados e, às vezes, até mesmo mortos. Mais uma vez, houve uma conjunção de fatores que nos levou a encontrar pessoas daninhas e não reconhecê-las como tais. As pessoas daninhas, quer dizer, aquelas que agem egoisticamente e sem visão da totalidade, são assim porque não podem ser de outra forma. Nós mesmos, que não as reconhecemos como tais e fomos inocentemente ao seu encontro, igualmente não pudemos nos resguardar. Em suma, as coisas são como são porque não puderam ser de outra forma. Isso não significa que acontecem por um decreto divino, mas que ocorrem como efeitos colaterais das redes da causalidade cósmica. No âmbito da corporeidade, quando interagimos com seres inanimados e animais irracionais, as leis da física e da biologia determinam as redes causais. No âmbito das relações humanas, as causas das ações são, em última análise, as crenças, opiniões e suposições às quais são dados os assentimentos. Epicteto ilustra o que acabo de dizer com o exemplo dos pais: 

Epicteto, Manual, 30: As ações adequadas são em geral medidas pelas relações. É teu pai? Está prescrito obedecê-lo em todas as coisas, suportá-lo quando ele te insulta, quando ele te bate. “Mas é um mau pai”. Não és posto pela Natureza em relação a um bom pai, mas em relação a um pai. “Meu irmão é injusto comigo”. Observa, portanto, teu próprio papel em relação a ele: não consideres o que ele faz, mas o que te é dado fazer, para que a tua vontade esteja de acordo com a natureza. Pois, se não quiseres, outro não te causará dano. Mas sofrerás dano quando pensares ter sofrido dano. Então, desse modo descobrirás as ações apropriadas para com o vizinho, para com o cidadão, para com o general: se te habituares a considerar as relações.

Nesta passagem do Manual, Epicteto destaca que podemos visualizar as ações adequadas (em grego, ta kathekonta) para cada situação na medida em que compreendermos que uma ação adequada se refere a um certo papel que nos é atribuído (como pai, mãe, filho, filha, irmão, irmã, vizinho, concidadão), nos situando em um dos polos de determinada relação. Em cada um desses casos, como Epicteto enfatiza acima, não devemos reagir diante do que outro nos faz, o que seria a atitude daquele que tem uma visão estreita e parcial da realidade, mas sim visualizar e desempenhar adequadamente cada papel que nos cabe no seio das diferentes relações.

Epicteto afirma que tudo o que ocorre no mundo se dá segundo a Natureza Universal, embora muitas coisas atinjam a nossa natureza individual. Isso porque nossas naturezas individuais não são separadas, razão pela qual muitas coisas que acontecem parecem intencional ou malignamente se opor a nós, o que não é o caso. Por exemplo, se uma árvore cai sobre alguém causando ferimentos, não devemos ver tal fato como algo determinado pela Natureza contra aquele indivíduo. A árvore caiu por causas naturais, e o indivíduo simplesmente estava no lugar errado no que se refere à sua integridade física, do mesmo modo que um pé se enlameia ou se corta porque um homem precisa atravessar a pé um terreno difícil. Assim também, muitas vezes somos alvejados por outros seres humanos, sendo roubados, agredidos, injustiçados e, às vezes, até mesmo mortos. Mais uma vez, houve uma conjunção de fatores que nos levou a encontrar pessoas daninhas e não reconhecê-las como tais. As pessoas daninhas, quer dizer, aquelas que agem egoisticamente e sem visão da totalidade, são assim porque não podem ser de outra forma. Nós mesmos, que não as reconhecemos como tais e fomos inocentemente ao seu encontro, igualmente não pudemos nos resguardar. Em suma, as coisas são como são porque não puderam ser de outra forma. Isso não significa que acontecem por um decreto divino, mas que ocorrem como efeitos colaterais das redes da causalidade cósmica. No âmbito da corporeidade, quando interagimos com seres inanimados e animais irracionais, as leis da física e da biologia determinam as redes causais. No âmbito das relações humanas, as causas das ações são, em última análise, as crenças, opiniões e suposições às quais são dados os assentimentos. Epicteto ilustra o que acabo de dizer com o exemplo dos pais: 

Epicteto, Manual, 30: As ações adequadas são em geral medidas pelas relações. É teu pai? Está prescrito obedecê-lo em todas as coisas, suportá-lo quando ele te insulta, quando ele te bate. “Mas é um mau pai”. Não és posto pela Natureza em relação a um bom pai, mas em relação a um pai. “Meu irmão é injusto comigo”. Observa, portanto, teu próprio papel em relação a ele: não consideres o que ele faz, mas o que te é dado fazer, para que a tua vontade esteja de acordo com a natureza. Pois, se não quiseres, outro não te causará dano. Mas sofrerás dano quando pensares ter sofrido dano. Então, desse modo descobrirás as ações apropriadas para com o vizinho, para com o cidadão, para com o general: se te habituares a considerar as relações.

Nesta passagem do Manual, Epicteto destaca que podemos visualizar as ações adequadas (em grego, ta kathekonta) para cada situação na medida em que compreendermos que uma ação adequada se refere a um certo papel que nos é atribuído (como pai, mãe, filho, filha, irmão, irmã, vizinho, concidadão), nos situando em um dos polos de determinada relação. Em cada um desses casos, como Epicteto enfatiza acima, não devemos reagir diante do que outro nos faz, o que seria a atitude daquele que tem uma visão estreita e parcial da realidade, mas sim visualizar e desempenhar adequadamente cada papel que nos cabe no seio das diferentes relações.

De fato, é exatamente o que lemos no próprio Manual alguns capítulos à frente:

Epicteto, Manual, 51: [1] Por quanto tempo ainda esperarás para que te julgues merecedor das melhores coisas e para que em nada transgridas os ditames da razão? Recebeste os princípios filosóficos, com os quais foi preciso concordar, e concordaste.  Por qual mestre ainda esperas para que confies a ele a correção de ti mesmo? Não és mais um adolescente, já és um homem feito. Se agora fores descuidado e preguiçoso, e sempre fizeres adiamentos após adiamentos, fixando um dia após o outro o dia depois do qual cuidarás de ti mesmo, não perceberás que não progrides. E permanecerás, tanto vivendo quanto morrendo, um homem comum. [2] Então, a partir de agora, como um homem feito e que progride, considera a tua vida merecedora de valor. E que seja lei inviolável para ti tudo o que se afigurar como o melhor. Então, se uma tarefa árdua, ou prazerosa, ou grandiosa, ou obscura te for apresentada, lembra que essa é a hora da luta, que essa é a hora dos Jogos Olímpicos, e que não há mais nada pelo que esperar, e que, por um revés ou um deslize, perde-se o progresso, ou o conserva. [3] Deste modo Sócrates realizou-se: de todas as coisas com que se deparou, não cuidou de nenhuma outra, exceto a razão. E tu, mesmo que não sejas Sócrates, deves viver desejando ser como Sócrates.

O leitor, para assumir seu papel de filósofo e de exegeta do Cosmos e pôr de lado o papel de homem comum (sem instrução filosófica), precisa fazer uma escolha. Em outros termos, o papel de filósofo está acessível a todos, mas é preciso realizar uma escolha para assumi-lo e realizá-lo efetivamente. Essa escolha está, por sua vez, relacionada a uma tomada de posição quanto à própria natureza conflituosa do humano, que se filia a duas estirpes distintas: a divina e racional e a animal e irracional, como Epicteto deixa claro em passagem citada acima (Epicteto, Diatribes, 1.9.1-6). Entretanto, em outra diatribe, Epicteto adiciona uma nota pessimista quanto ao que efetivamente acontecerá quanto a essa escolha que cabe aos humanos:

Epicteto, Diatribe 1.3: (4) Com efeito, já que é necessário que todo e qualquer um use cada coisa segundo o que supõe sobre ela, aqueles poucos que pensam ter nascido tanto para a confiabilidade e para a dignidade quanto para a firmeza no uso das representações nada sórdido ou abjeto supõem sobre si mesmos. A maioria pensa o contrário: (5) “O que sou? Um diminuto e miserável ser humano, (6) um desgraçado pedaço de carne”. A carne é desgraçada, mas tu possuis também algo melhor que ela. Por que abandonas o melhor e te agarras à carne? (7) Por esse parentesco, alguns, inclinando-se para a carne, tornam-se semelhantes aos lobos: desleais[6], traiçoeiros e nocivos. Outros se tornam como os leões: agrestes, bestiais e selvagens. Mas muitos de nós se tornam raposas e, portanto, o que há de desafortunado entre os animais. (8) Pois que outra coisa é um ser humano ofensivo e malévolo senão uma raposa ou algum outro animal mais desafortunado e abjeto? (9) Assim, vigiai e tomai cuidado para que não proveis ser algum desses seres desafortunados.

Epicteto esclarece que, embora o chamado para a filosofia tenha sido feito a todos os humanos, a maioria declinará esse convite e se voltará para o seu lado animal, se tornando desafortunados. Assim, podemos concluir que todos nós, humanos, somos  convocados para a filosofia, mas que apenas parte efetivamente assumirá esse posto em razão de nossas escolhas. 

Mas, voltando à questão que deixamos em aberto acima: e quanto ao posto de filósofo cínico? Para Epicteto, todos são também convocados para tal?  A resposta é não: o posto de cínico é um papel que é atribuído a poucos sobre a face da Terra. Alguns, percebendo o substrato cínico do estoicismo, podem pensar que os estoicos são como cínicos tímidos por não se dedicarem às performances cínicas e não viverem em contraposição à humanidade. Mas é preciso lembrar que os estoicos almejam, diferentemente dos cínicos, cumprir os papéis que lhes são atribuídos no seio da comunidade humana. Imaginar que, por exemplo, ser mãe e se dedicar à maternidade ou a fazer pães e abraçar a profissão de padeiro sejam coisas menores em relação à visibilidade do cínico é própria dos humanos comuns, sem instrução filosófica, mas não dos estoicos, que compreendem como nenhum grupo filosófico anterior o caráter comunitário da humanidade e do Cosmos. Os estoicos em geral e Epicteto em particular compreendem que todos os papéis a serem cumpridos no seio da humanidade são essenciais para a comunidade humana. De fato, pensem em um mundo sem mães e sem pães?

Assim, enquanto podemos escolher nossa profissão e escolher cumprir nosso filosófico papel de exegeta do Cosmos (que, em resumo, significa compreender a organicidade do mundo e da humanidade e que somos parte de um todo maior), temos que reconhecer nosso caráter (que não escolhemos) e os papéis que nos são atribuídos (também para além de nossas escolhas), aceitá-los e bem cumpri-los. Encontramos justamente essa ideia do ator cumprir seu papel em um drama tendo ciência de que esse papel lhe foi atribuído por outrem no capítulo 17 do Manual de Epicteto:
 
Epicteto, Manual, 17: Lembra que és um ator na peça teatral que o Dramaturgo quiser: se Ele a quiser breve, breve será; se longa, longa será; se Ele desejar que interpretes o papel de mendigo, é para que interpretes esse papel com habilidade. E, da mesma forma, se coxo, se magistrado, se homem comum. Pois isso é teu: interpretar belamente o papel que te é dado. Mas cabe a outro escolhê-lo.Tradução Aldo Dinucci e Alfredo Julien)

Epicteto, na diatribe 1.29, enfatiza o perigo de se confundir com a própria vestimenta cênica, quer dizer, de se envolver no drama a ponto de perder a ciência de que se trata de um papel a cumprir em uma peça:

Epicteto, Diatribe 1.29: (41) Em breve, chegará o tempo em que os atores trágicos pensarão ser eles mesmos as máscaras, as pantufas e as vestimentas cênicas. Homem, tu possuis essa matéria e esse propósito. (42) Fala algo para vermos se és ator trágico ou comediante: pois ambos têm as demais coisas em comum.

A metáfora do dramaturgo, segundo Festugiere, é de inspiração cínica e já aparece no predicador moral Teles, do século 3 AEC, que atribui tal metáfora ao cínico Bion de Borístenes, um aluno de Crates, o cínico:

Teles, Diatribes, 4: Como o bom ator deve cumprir belamente o papel que o poeta lhe atribuiu, assim o humano virtuoso deve cumprir bem o papel que a fortuna lhe atribui… A fortuna, como um dramaturgo, compõe todo tipo de personagens, o náufrago, o mendigo, o exilado, o homem coberto de honras, o homem sem honras, é necessário, portanto,que o virtuoso cumpra bem seu papel, qualquer que seja o papel que lhe tenha sido atribuído. 

Em Diatribes 1.29, Epicteto enfatiza que se confundir com o papel atribuído é um erro comum dos humanos sem instrução filosófica, que atribuem maior importância a papéis de maior visibilidade e poder, se vangloriando quando os ostentam e se diminuindo quando não. Assim, o papel de cínico é atribuído pela divindade, mas em si mesmo não é superior ou mais importante que outros papéis com menor poder e visibilidade. O que cabe ao humano virtuoso é bem cumprir o papel a ele destinado, qualquer que seja ele.